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Ansiedade pode estar associada a mudanças no sono profundo, aponta estudo

Pesquisa publicada na revista científica Sleep identificou diferenças na atividade cerebral durante o sono entre jovens com mais sintomas de ansiedade. Os resultados ajudam a investigar a relação entre sono e regulação emocional, mas ainda precisam ser confirmados em outros grupos.

Ilustração de uma pessoa dormindo com representação do cérebro, ondas cerebrais e gráficos.
Imagem ilustrativa. Os gráficos representados não são dados do estudo citado.Imagem fornecida pela WYNEED.

Por Wenner Daniele

Psicóloga e editora da WYNEED News & Insights

5 min de leitura

O sono profundo pode apresentar diferenças importantes em pessoas que relatam mais sintomas de ansiedade. É o que sugere um estudo publicado em outubro de 2026 na revista científica Sleep, que investigou a relação entre sintomas de ansiedade, estágios do sono e mudanças na atividade elétrica cerebral ao longo da noite.

A pesquisa identificou que os participantes com níveis elevados de ansiedade apresentaram uma proporção maior de sono profundo e uma redução menos acentuada da atividade cerebral de ondas lentas durante a noite. Os resultados apontam para uma associação entre ansiedade e características específicas da arquitetura do sono, mas não demonstram que uma condição provoque a outra.

O estudo, realizado com jovens adultos na Finlândia, contribui para a investigação dos mecanismos envolvidos na relação entre sono e saúde mental.

O que os pesquisadores descobriram?

O estudo avaliou 70 jovens que cumpriam o serviço militar obrigatório na Finlândia. Os participantes tinham entre 18 e 24 anos, e 67 dos 70 eram homens.

Para investigar o sono, os pesquisadores utilizaram a polissonografia noturna, um exame que registra diferentes sinais fisiológicos durante o repouso, incluindo a atividade elétrica cerebral. Os participantes também responderam a instrumentos de avaliação de sintomas de ansiedade, depressão e sonolência diurna.

Os resultados indicaram que 24% dos participantes apresentavam níveis elevados de sintomas de ansiedade. Nesse grupo, os pesquisadores observaram duas diferenças principais: uma proporção maior de sono profundo, conhecido como estágio N3, e uma redução menos acentuada da atividade cerebral de ondas lentas ao longo da noite.

A atividade de ondas lentas, também chamada de slow-wave activity (SWA), é uma medida obtida a partir do eletroencefalograma. Ela está relacionada à intensidade do sono e à pressão fisiológica acumulada durante o período de vigília.

Em condições habituais, essa atividade tende a diminuir à medida que os ciclos de sono avançam. No grupo com mais sintomas de ansiedade, essa redução foi menos pronunciada.

Isso significa que os participantes com mais sintomas de ansiedade apresentaram um padrão diferente de atividade cerebral durante o sono. Entretanto, os resultados não permitem concluir que dormir mais profundamente seja prejudicial ou que o aumento do sono N3 represente, por si só, um problema clínico.

Por que o sono profundo importa para a saúde mental?

O sono não é um estado uniforme. Durante a noite, o cérebro passa por diferentes estágios, que se alternam em ciclos e apresentam características próprias.

O estágio N3 é conhecido como sono profundo ou sono de ondas lentas. Nesse período, a atividade cerebral apresenta ondas lentas de grande amplitude, observadas por meio do eletroencefalograma.

Essa fase está relacionada a processos importantes para o funcionamento do organismo, incluindo aspectos da recuperação física, da memória e da regulação emocional.

A atividade cerebral durante o sono também é relevante para compreender como experiências emocionais são processadas. Pesquisadores investigam de que maneira o sono participa da consolidação de memórias e da modulação das respostas emocionais a acontecimentos vividos durante o dia.

No estudo publicado na Sleep, a atenção dos pesquisadores se voltou não apenas à presença de sono profundo, mas também à maneira como a atividade de ondas lentas se modificava durante a noite.

Essa distinção é importante: observar quanto tempo uma pessoa passa em determinado estágio do sono não é o mesmo que analisar como a atividade cerebral evolui ao longo dos ciclos.

Os resultados sugerem que essas características podem ajudar a compreender diferenças associadas aos sintomas de ansiedade. Ainda assim, são necessárias novas pesquisas para esclarecer o significado funcional desse padrão e suas possíveis implicações clínicas.

Ansiedade e depressão apresentaram resultados diferentes

Os pesquisadores também investigaram a relação entre as características do sono e os sintomas depressivos.

De acordo com os resultados, a maior proporção de sono N3 e a menor redução da atividade de ondas lentas estiveram mais associadas aos sintomas de ansiedade do que aos sintomas de depressão.

O estudo identificou ainda uma diferença no sono REM, estágio frequentemente associado à ocorrência de sonhos vívidos e a processos relacionados à memória e à emoção.

Os participantes que apresentavam sintomas elevados de ansiedade, mas não níveis elevados de sintomas depressivos, tiveram uma proporção menor de sono REM em comparação com os participantes que apresentavam tanto ansiedade quanto depressividade elevada e com aqueles que não apresentavam sintomas elevados dessas condições.

Na análise mais detalhada das frequências cerebrais, os pesquisadores também observaram maior atividade alfa durante o sono REM entre indivíduos com mais sintomas de ansiedade. Esse resultado pode ser compatível com a hipótese de maior ativação cortical durante o sono, mas sua interpretação ainda exige investigação.

Essas diferenças mostram que ansiedade e depressão não devem ser tratadas como fenômenos necessariamente idênticos quando se estuda a fisiologia do sono.

Ao mesmo tempo, os achados não permitem estabelecer um padrão universal para pessoas com transtornos de ansiedade ou depressão. Os resultados se referem à amostra investigada e precisam ser examinados em populações mais diversas.

O que esses resultados significam na prática?

A principal contribuição do estudo é ampliar a compreensão de como os sintomas de ansiedade podem estar relacionados a características específicas do sono.

A pesquisa sugere que a investigação do sono pode considerar não apenas a duração do repouso ou a percepção subjetiva de ter dormido bem, mas também aspectos da organização dos estágios do sono e da atividade cerebral.

Isso não significa que pessoas com ansiedade devam necessariamente apresentar mais sono profundo, nem que uma noite de sono possa ser utilizada para identificar um transtorno psicológico.

A polissonografia é um exame técnico, e os resultados observados em pesquisas não substituem uma avaliação clínica individual. Além disso, alterações no sono podem estar relacionadas a diferentes fatores, que precisam ser considerados em conjunto.

Na prática clínica, compreender as queixas de sono pode contribuir para uma avaliação mais ampla da saúde mental. Dificuldades para adormecer, despertares frequentes, sensação de descanso insuficiente e preocupação persistente com o sono são aspectos que podem merecer investigação, conforme a história e as necessidades de cada pessoa.

No entanto, este estudo não avaliou a eficácia de um tratamento específico para ansiedade ou insônia. Portanto, não é possível utilizá-lo para afirmar que determinada intervenção terapêutica, medicamento ou estratégia comportamental produzirá mudanças nos padrões identificados.

O resultado mais importante, neste momento, é a indicação de que a relação entre ansiedade e sono pode envolver mecanismos fisiológicos mais complexos do que a simples quantidade de horas dormidas.

Uma relação que ainda precisa ser investigada

Embora os resultados sejam relevantes, algumas limitações precisam ser consideradas.

A amostra foi pequena e composta predominantemente por homens jovens, com idades entre 18 e 24 anos, que cumpriam o serviço militar obrigatório na Finlândia. Esse perfil limita a possibilidade de generalizar os resultados para mulheres, pessoas de outras faixas etárias ou indivíduos com diferentes condições de saúde e contextos de vida.

Além disso, o estudo identificou associações entre sintomas de ansiedade e características do sono. Esses resultados, por si só, não estabelecem uma relação de causa e efeito.

Os pesquisadores discutem possíveis explicações para os achados. Uma delas é que diferenças na dissipação da atividade de ondas lentas possam estar relacionadas ao processamento de memórias emocionais negativas. Outra possibilidade é que um estado de maior ativação fisiológica ou cerebral esteja associado a uma necessidade diferente de recuperação durante o sono.

Essas explicações são hipóteses que precisam ser investigadas em estudos futuros. Não representam mecanismos causais comprovados pela pesquisa.

Novas investigações, com amostras maiores e mais diversificadas, poderão ajudar a esclarecer se essas características do sono antecedem os sintomas de ansiedade, surgem em associação com eles ou refletem outros fatores.

Por enquanto, o estudo reforça a importância de compreender o sono como um processo complexo, relacionado a diferentes dimensões da saúde e do funcionamento cerebral.

A relação entre sono e ansiedade não pode ser resumida a uma única alteração fisiológica. Entretanto, investigar essas conexões pode contribuir para o desenvolvimento de avaliações mais completas e para uma compreensão científica mais precisa dos processos envolvidos na regulação emocional.

Conteúdo jornalístico elaborado com base no artigo científico citado. Os resultados descritos refletem a população estudada e não devem ser interpretados como diagnóstico ou como evidência de causalidade.

Referências científicas

  • Heimola M, Orjatsalo M, Laitinen P, Tuisku K, Pitkänen H, Toppila J, Simola P, Ammälä AJ, Räisänen P, Parkkola K, Virkkala J, Alakuijala A, Paunio T. Symptoms of anxiety are linked to N3 sleep and lower dissipation of slow-wave activity during nocturnal sleep. Sleep. Publicado on-line em 14 de outubro de 2026. DOI: 10.1093/sleep/zsag267. Consultar referência
Acesse o estudo original →
Temas desta matéria#Ansiedade#Sono profundo#Ciência do sono#Saúde mental
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