Saúde Mental
Medicamentos para ansiedade: tipos, como funcionam e o que saber antes de começar um tratamento
Por Wenner Daniele · CRP 24/01431
Ansiedade não se resolve com um nome de comprimido
Toda semana, alguém me pergunta, geralmente baixinho, quase se desculpando, se existe um remédio que resolva a ansiedade de uma vez. Entendo a vontade por trás dessa pergunta. Mas a resposta honesta é mais complexa do que um nome de comprimido, e é justamente essa resposta que eu quero construir com você neste texto.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação médica ou psicológica. Decisões sobre medicação são sempre médicas e individuais; eu, como psicóloga, não prescrevo remédios, e é importante que você saiba disso desde já.
Fonte: NICE — Guideline de ansiedade generalizada e pânico (CG113).
- 01Resumo rápido
- 02Remédio para ansiedade existe?
- 03Classes de medicamentos usados no tratamento da ansiedade
- 04Fluoxetina, sertralina, escitalopram e os outros ISRS
- 05Venlafaxina e duloxetina (IRSN)
- 06Quanto tempo o remédio demora para fazer efeito?
- 07Efeitos colaterais e descontinuação
- 08Remédio e psicoterapia
- 09A Terapia Cognitivo-Comportamental substitui o medicamento?
- 10Brasileiros no exterior
- 11Perguntas frequentes
Resumo rápido
Sim, existem medicamentos usados no tratamento dos transtornos de ansiedade, mas não existe um único "melhor remédio para ansiedade": a escolha depende do diagnóstico, do quadro e da pessoa.
As classes mais usadas são os ISRS (fluoxetina, sertralina, escitalopram, paroxetina, fluvoxamina) e os IRSN (venlafaxina, duloxetina).
Benzodiazepínicos (como alprazolam, clonazepam, diazepam e lorazepam) agem rápido, mas trazem risco de tolerância e dependência, por isso não são indicados como solução de longo prazo.
O efeito terapêutico dos antidepressivos costuma ser progressivo, não imediato, e varia de pessoa para pessoa.
Medicamento e psicoterapia podem ser usados juntos, quando clinicamente indicado, e nenhum dos dois deve ser interrompido por conta própria.
Remédio para ansiedade existe?
Sim, existem medicamentos utilizados no tratamento dos transtornos de ansiedade. Isso é fato, e não faz sentido fingir o contrário. Mas ansiedade não é uma doença única, é um conjunto de transtornos diferentes (TAG, transtorno de pânico, ansiedade social, fobias específicas, entre outros). E isso já explica por que não existe um único "melhor remédio para ansiedade" que sirva para todo mundo.
A escolha de um medicamento, quando ela é indicada, depende de uma combinação de fatores que só um médico pode avaliar, entre eles:
o diagnóstico e o tipo específico de transtorno de ansiedade
a intensidade dos sintomas
a presença de outras condições psicológicas
a presença de outras condições médicas
outros medicamentos que a pessoa já utiliza
o histórico de resposta a tratamentos anteriores
os efeitos adversos observados ou esperados
a idade da pessoa
gravidez, quando aplicável
o risco de interações medicamentosas
a preferência e o contexto de vida da pessoa
Reforço isso porque vejo muita gente chegar ao consultório já com um nome de remédio decorado, ouvido de um amigo ou de uma pesquisa no Google, esperando que aquilo funcione da mesma forma para ela. Não é assim que funciona, e um médico psiquiatra é quem tem a formação para tomar essa decisão com segurança.
Classes de medicamentos usados no tratamento da ansiedade
Antes de falar de nomes específicos, ajuda entender as classes a que eles pertencem, porque isso explica por que remédios diferentes são usados de formas diferentes.
Segundo uma revisão de Garakani, Murrough, Freire e colaboradores, publicada na Frontiers in Psychiatry em 2020, os antidepressivos (especialmente os ISRS e os IRSN) são considerados tratamento farmacológico de primeira linha para a maioria dos transtornos de ansiedade, enquanto os benzodiazepínicos ocupam um papel mais restrito e específico.
ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) Incluem fluoxetina, sertralina, escitalopram, paroxetina e fluvoxamina. É importante não tratá-los como intercambiáveis: nem todos têm exatamente as mesmas indicações aprovadas para cada transtorno de ansiedade, e a escolha entre eles é sempre individualizada.
IRSN (Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina) Incluem venlafaxina e duloxetina, que atuam sobre dois neurotransmissores em vez de um.
Benzodiazepínicos Incluem alprazolam, clonazepam, diazepam e lorazepam. Têm ação mais rápida, mas trazem questões específicas de tolerância, dependência e abstinência, que detalho mais adiante.
Outros medicamentos Buspirona, pregabalina e, em situações específicas, antidepressivos de outras classes também podem entrar no leque de opções. Uma revisão farmacológica indexada no PubMed cobre justamente essa diversidade de escolhas possíveis dentro do tratamento da ansiedade.
Fluoxetina, sertralina, escitalopram e os outros ISRS
Fluoxetina para ansiedade
Essa é, talvez, a pergunta que mais recebo sobre um remédio específico: fluoxetina funciona para ansiedade? Fluoxetina é antidepressivo, pertence à classe dos ISRS e atua aumentando a disponibilidade de serotonina no cérebro.
Segundo o Comitê de Especialistas em Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde, em uma revisão de 2023, a fluoxetina é eficaz na redução de sintomas de transtorno de pânico, transtorno de ansiedade generalizada, ansiedade social e transtorno obsessivo-compulsivo, com base em revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados. O mesmo documento descreve o perfil de segurança como geralmente bem tolerado, com efeitos como náusea, diarreia, boca seca, dor de cabeça e insônia, em geral leves e temporários, mas chama atenção para pontos importantes: risco aumentado de ideação suicida em populações mais jovens (o que levou a um alerta específico em bula em alguns países), risco de sangramento quando combinada a anticoagulantes, e risco de hiponatremia. Por isso, o acompanhamento médico nas primeiras semanas de tratamento, ou após qualquer mudança de dose, é considerado essencial.
Se a indicação é para ansiedade ou para outro quadro, e se o uso é dentro ou fora da bula aprovada em cada país, é sempre uma avaliação que cabe ao médico, não uma escolha que a pessoa deveria fazer sozinha.
Sertralina para ansiedade
Sertralina é outro ISRS frequentemente perguntado: é antidepressivo, mas com indicações que, dependendo do país e da bula, incluem também transtornos de ansiedade, como transtorno de pânico e ansiedade social. Assim como a fluoxetina, seu mecanismo geral envolve a serotonina, o início do tratamento costuma ser gradual, e a interrupção deve ser conduzida com orientação médica, para reduzir o risco de sintomas de descontinuação.
Escitalopram para ansiedade
Escitalopram também é um ISRS, usado tanto para depressão quanto, em determinados contextos, para TAG e outros transtornos de ansiedade. A tolerabilidade costuma ser um dos motivos pelos quais é considerado em diferentes perfis de pacientes, mas, como todo antidepressivo, exige acompanhamento médico para ajuste de dose e monitoramento de efeitos adversos.
Paroxetina
Paroxetina também pertence à classe dos ISRS e aparece na literatura associada ao tratamento de ansiedade social, transtorno de pânico e TAG. Um ponto que costuma ser mencionado sobre ela é a atenção redobrada ao processo de descontinuação, que pode exigir uma redução mais gradual da dose, sempre sob orientação médica.
Fluvoxamina
Fluvoxamina é outro ISRS, historicamente mais associado ao tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo, mas também estudado em quadros de ansiedade. Como os demais medicamentos dessa classe, seu uso depende de avaliação individual, e possíveis interações medicamentosas devem ser sempre checadas com o médico responsável.
Venlafaxina e duloxetina (IRSN)
Venlafaxina e duloxetina pertencem à classe dos IRSN, que atuam sobre serotonina e noradrenalina, diferente dos ISRS, que atuam principalmente sobre a serotonina. Segundo a revisão de Garakani e colaboradores citada anteriormente, os IRSN também figuram entre as opções de primeira linha para diferentes transtornos de ansiedade, com um perfil de eficácia e de efeitos adversos que precisa ser avaliado caso a caso pelo médico. A venlafaxina é frequentemente citada em buscas sobre "antidepressivo para ansiedade", e a duloxetina, além do uso em quadros de ansiedade, também é associada ao manejo de dor crônica em alguns contextos clínicos.
Buspirona
Buspirona pertence a uma classe diferente dos ISRS e dos IRSN (as azapironas) e seu uso costuma ser mais específico, sobretudo em quadros de transtorno de ansiedade generalizada. Diferente dos benzodiazepínicos, não costuma estar associada a um efeito imediato nem ao mesmo perfil de dependência, mas, como qualquer medicamento, sua indicação depende de avaliação médica individual.
Quanto tempo o remédio demora para fazer efeito?
Essa dúvida é enorme, e faz sentido que seja. A resposta muda dependendo do tipo de medicamento.
Alguns medicamentos, como os benzodiazepínicos, podem reduzir determinados sintomas de forma bem mais rápida. Já os antidepressivos usados no tratamento de transtornos de ansiedade, como os ISRS e os IRSN, normalmente não produzem um efeito terapêutico imediato: a resposta costuma ser progressiva, e varia de pessoa para pessoa, dependendo do medicamento, do diagnóstico e do contexto individual. Não existe uma promessa responsável do tipo "em X dias você vai estar bem", e eu desconfiaria de qualquer conteúdo que afirmasse isso com essa certeza.
Efeitos colaterais e descontinuação
Quais são os efeitos colaterais dos remédios para ansiedade?
Dependendo do medicamento e da classe, os efeitos colaterais mais relatados incluem náusea e outras alterações gastrointestinais, dor de cabeça, sonolência, insônia, tontura, alterações na função sexual, mudanças de apetite, inquietação, fadiga e, em alguns medicamentos, alterações de peso. Vale reforçar: esses efeitos variam conforme o medicamento específico e a resposta individual de cada pessoa, e nem todo mundo vai sentir todos eles.
O remédio pode piorar a ansiedade no começo?
Sim, é possível. Algumas pessoas experimentam um aumento transitório da ansiedade, inquietação ou outros efeitos logo no início do tratamento com determinados antidepressivos, o que é justamente um dos motivos pelos quais o acompanhamento médico nas primeiras semanas é tão importante. Isso não é uma regra universal, mas é frequente o suficiente para merecer atenção e paciência.
Posso parar o remédio de uma vez?
Não é recomendado interromper a medicação por conta própria. Sintomas de descontinuação podem acontecer com alguns medicamentos, a forma de retirada depende de cada substância, e a duração do tratamento varia de pessoa para pessoa. Quando a interrupção é indicada, o médico costuma orientar uma redução gradual da dose, justamente para minimizar esse tipo de sintoma. Já vi pacientes que pararam de repente porque "estavam se sentindo bem" e passaram por um desconforto que poderia ter sido evitado com uma retirada acompanhada.
Remédio para ansiedade e depressão é o mesmo?
Ansiedade e depressão podem coexistir, e é comum que a mesma pessoa apresente sintomas dos dois quadros ao mesmo tempo. Alguns antidepressivos são utilizados tanto em quadros de ansiedade quanto de depressão, mas isso não significa que qualquer antidepressivo sirva para qualquer pessoa nessas condições: o diagnóstico continua sendo o ponto de partida para qualquer decisão de tratamento.
Remédio e psicoterapia
Psicoterapia e medicamento podem ser usados juntos?
Sim, em determinadas situações. Bandelow, Michaelis e Wedekind, na revisão que mencionei antes, reconhecem o tratamento psicológico, o tratamento farmacológico ou a combinação dos dois como abordagens válidas para transtornos de ansiedade, a depender do quadro e da avaliação clínica. Na prática, isso significa que o tratamento pode envolver só psicoterapia, só medicação, ou os dois juntos, quando clinicamente indicado.
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A Terapia Cognitivo-Comportamental substitui o medicamento?
Não existe uma resposta universal para essa pergunta, e eu diria que essa é uma das perguntas mais honestas que alguém pode fazer. Para algumas pessoas, a psicoterapia pode ser suficiente. Para outras, o medicamento pode ser indicado. Em outras situações ainda, a combinação das duas abordagens pode ser o caminho mais apropriado. A TCC tem uma base de evidências relevante para o tratamento de transtornos de ansiedade, e a decisão sobre incluir ou não medicação nesse processo é sempre médica, feita em conjunto com o acompanhamento psicológico quando os dois caminham lado a lado.
Brasileiros no exterior
Atendo brasileiros vivendo fora do país, e esse é um assunto que aparece com frequência nas sessões: alguém que já usava um remédio no Brasil e não sabe como continuar o tratamento onde está agora, ou alguém que ouviu falar de um medicamento e quer saber se "existe" no país onde mora.
Alguns pontos importantes para quem vive fora do Brasil: a prescrição de medicamentos e o acompanhamento médico devem seguir as regras do país onde a pessoa está residindo; existem diferenças regulatórias entre países quanto a quais medicamentos são aprovados, disponíveis ou de venda controlada; os nomes comerciais de um mesmo medicamento podem variar bastante de um país para outro, mesmo quando o princípio ativo é o mesmo; e não se deve transportar ou importar medicamentos entre países sem antes verificar as regras locais.
A psicoterapia online em português pode fazer parte desse acompanhamento, ajudando brasileiros em países como Estados Unidos, Canadá, Portugal, Reino Unido, Irlanda, Japão, Austrália, Nova Zelândia e outros países da Europa a manterem um espaço de cuidado psicológico no próprio idioma. Mas isso não substitui a avaliação médica necessária para qualquer prescrição, que precisa ser feita por um profissional habilitado no país onde a pessoa vive.
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Perguntas frequentes
Qual é o melhor remédio para ansiedade?
Não existe um único "melhor remédio", porque a ansiedade não é uma condição única e a escolha depende do diagnóstico, da intensidade dos sintomas e de características individuais de cada pessoa. Essa decisão cabe sempre a um médico.
Fluoxetina funciona para ansiedade?
Segundo revisão da Organização Mundial da Saúde, a fluoxetina é eficaz na redução de sintomas de diferentes transtornos de ansiedade, mas seu uso depende de avaliação e acompanhamento médico.
Qual a diferença entre antidepressivo e ansiolítico?
De forma geral, antidepressivos (como ISRS e IRSN) costumam ter efeito progressivo e são usados também no tratamento de longo prazo da ansiedade, enquanto ansiolíticos, como os benzodiazepínicos, têm ação mais rápida e são indicados de forma mais pontual e por tempo limitado.
Remédio para ansiedade causa dependência?
Alguns, sim. Os benzodiazepínicos, em especial, apresentam risco de tolerância e dependência com o uso prolongado, o que faz com que sejam recomendados, segundo a Organização Mundial da Saúde, apenas para situações agudas e por curto prazo.
Quanto tempo o remédio para ansiedade demora para fazer efeito?
Varia. Alguns medicamentos podem trazer alívio mais rápido, enquanto antidepressivos costumam ter um efeito terapêutico progressivo, que se estabelece ao longo de semanas e depende do medicamento, do diagnóstico e da pessoa.
Posso parar de tomar antidepressivo de uma vez?
Não é recomendado. A interrupção deve ser orientada por um médico, geralmente de forma gradual, para reduzir o risco de sintomas de descontinuação.
Psicoterapia e medicamento podem ser usados juntos?
Sim, quando clinicamente indicado. A literatura reconhece tratamento psicológico, farmacológico ou a combinação dos dois como abordagens válidas para transtornos de ansiedade.
Psicólogo pode prescrever remédio para ansiedade?
Não. Psicólogos não prescrevem medicamentos no exercício da psicologia; a prescrição é uma atribuição médica, dentro das normas aplicáveis em cada país.
Cada leitura é um convite ao cuidado com a própria mente — o primeiro passo pode ser conversar.
Leia também:
- World Health Organization. Fluoxetine for anxiety disorders, revisão do Comitê de Especialistas em Medicamentos Essenciais, 2023.
- Garakani A, Murrough JW, Freire RC, et al. Pharmacotherapy of Anxiety Disorders: Current and Emerging Treatment Options. Frontiers in Psychiatry, 2020.
- Bandelow B, Michaelis S, Wedekind D. Treatment of anxiety disorders. Dialogues in Clinical Neuroscience, 2017.
- Gomez AF, Barthel AL, Hofmann SG. Comparing the efficacy of benzodiazepines and serotonergic anti-depressants for adults with generalized anxiety disorder: a meta-analytic review. Expert Opinion on Pharmacotherapy, 2018.
