Saúde mental
Aplicativo de TCC para insônia apresenta resultados positivos em ensaio clínico com 165 participantes
Estudo publicado em 2026 encontrou redução da gravidade da insônia com um programa digital de nove semanas. Maior participação nas atividades esteve associada a melhores resultados, mas a adesão ao tratamento foi um desafio.

A investigação científica sobre o uso de ferramentas digitais no tratamento dos distúrbios do sono avança com a publicação de um ensaio clínico randomizado preliminar no periódico Internet Interventions (Knutzen et al., 2026). O estudo avaliou um programa totalmente automatizado de Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), disponibilizado por meio de um aplicativo de smartphone chamado Hvil®.
Os pesquisadores observaram uma redução significativa da gravidade da insônia entre os participantes que utilizaram o aplicativo, em comparação com aqueles que permaneceram em lista de espera. A análise também identificou uma associação entre maior participação nas atividades propostas e melhores resultados.
Apesar dos achados positivos, os autores destacaram desafios relacionados à adesão e à continuidade do tratamento, além da necessidade de estudos adicionais para avaliar a manutenção dos benefícios ao longo do tempo.
Onde e quando a pesquisa foi realizada
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores vinculados ao Department of Psychology and Behavioural Science da Aarhus University, à Unit for Psychooncology & Health Psychology do Aarhus University Hospital e à Sleep and Circadian Psychology Research Unit, na Dinamarca.
O aplicativo foi desenvolvido em colaboração com a empresa de tecnologia em saúde Enversion A/S. Os autores informaram sua participação no desenvolvimento do programa e declararam não possuir interesse financeiro direto nele.
A captação dos participantes ocorreu entre os dias 6 e 9 de setembro de 2022. O artigo científico foi publicado em 30 de setembro de 2026.
Delineamento metodológico e amostra
Trata-se de um ensaio clínico randomizado preliminar, desenvolvido para estimar os efeitos iniciais do programa digital e orientar pesquisas futuras de maior dimensão. O estudo não contou com cálculo prévio do tamanho amostral baseado em análise de poder estatístico.
A amostra foi composta por 165 adultos dinamarqueses da população geral que apresentavam sintomas de insônia, identificados por pontuação igual ou superior a 10 no Índice de Gravidade da Insônia (ISI).
Para participar, os voluntários precisavam ter acesso a um smartphone e domínio da língua dinamarquesa. Foram excluídas pessoas com determinadas condições físicas ou psicológicas que afetassem diretamente o sono, outros transtornos do sono diagnosticados e algumas situações específicas previstas no protocolo da pesquisa.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos:
Grupo de intervenção (n = 83): recebeu acesso ao programa digital de nove semanas, estruturado com cinco componentes da TCC-I: restrição do tempo na cama, controle de estímulos, terapia cognitiva, relaxamento e educação sobre higiene do sono.
Grupo de controle (n = 82): permaneceu em lista de espera, com acesso ao diário do sono integrado ao aplicativo, mas sem acesso imediato aos módulos terapêuticos.
Resultados e desafios observados
Os resultados indicaram uma redução estatisticamente significativa da gravidade da insônia no grupo que utilizou o aplicativo, em comparação com o grupo de controle.
A diferença entre os grupos apresentou significância estatística (p menor que 0,001), com tamanho de efeito de Cohen d = 0,66, considerado de magnitude moderada.
Também foram observadas melhorias em indicadores secundários, incluindo qualidade subjetiva do sono, fadiga diurna, tempo na cama e despertares noturnos.
Esses resultados sugerem que um programa digital estruturado pode contribuir para a redução dos sintomas de insônia. Entretanto, os efeitos observados não significam que todos os participantes tenham apresentado a mesma resposta ao tratamento.
A adesão foi um dos principais desafios
Apesar dos resultados positivos, a continuidade da participação no programa representou uma dificuldade importante.
Adesão parcial: apenas 43 dos 83 participantes do grupo de intervenção, aproximadamente 52%, chegaram a iniciar os cinco componentes terapêuticos do aplicativo. Os outros 40 não iniciaram todos os componentes, correspondendo a uma taxa de abandono do tratamento de 48%.
Abandono do estudo: aproximadamente 35% dos participantes do grupo de intervenção não responderam ao questionário de pós-tratamento.
Associação entre engajamento e resultados: os pesquisadores observaram que maior participação nas atividades do aplicativo esteve associada a reduções maiores na gravidade da insônia ao longo do tempo. Entretanto, essa associação não comprova que a adesão, isoladamente, tenha causado a melhora.
Ausência de acompanhamento a longo prazo: o ensaio avaliou os resultados após a intervenção, mas não acompanhou os participantes por meses ou anos. Portanto, não é possível afirmar se os benefícios permaneceram após o encerramento do programa.
Ausência de comparação direta com outros tratamentos: o aplicativo foi comparado com um grupo em lista de espera, e não diretamente com psicoterapia conduzida por um profissional ou com intervenções farmacológicas.
Limitações das medidas utilizadas: os resultados foram avaliados principalmente por questionários e registros dos próprios participantes. O estudo não utilizou medidas objetivas, como actigrafia, para avaliar os padrões de sono.
Essas limitações não anulam os resultados, mas indicam que são necessárias novas pesquisas para confirmar os achados, compreender os fatores que favorecem a adesão e avaliar a manutenção dos benefícios.
Nota da psicóloga: a importância da psicoterapia online com continuidade digital
Os dados apresentados por Knutzen e colaboradores (2026) ilustram uma possibilidade importante para o desenvolvimento da telessaúde e das intervenções digitais em saúde mental.
A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia é recomendada por diretrizes clínicas como tratamento de primeira linha para a insônia crônica. A literatura científica também indica que seus benefícios podem ser mais duradouros do que aqueles obtidos com tratamentos farmacológicos, embora a escolha terapêutica deva considerar as características e necessidades de cada paciente.
Na TCC, parte do processo terapêutico acontece entre as sessões. O paciente é incentivado a observar padrões, registrar experiências, testar estratégias e aplicar habilidades trabalhadas durante o acompanhamento.
No tratamento da insônia, o diário do sono é um recurso especialmente relevante. Ele permite registrar horários de dormir e acordar, despertares noturnos e percepção da qualidade do sono. Essas informações ajudam a identificar padrões e acompanhar a evolução ao longo do tratamento.
Aplicativos podem facilitar esse processo ao organizar registros, disponibilizar atividades e apresentar informações sobre a evolução do paciente. Entretanto, a tecnologia precisa estar integrada a uma proposta terapêutica coerente e adequada às necessidades individuais.
A experiência clínica com pacientes expatriados e atendidos por meio da telepsicologia também evidencia o valor de recursos digitais como ferramentas complementares. Para brasileiros que vivem no exterior, essas soluções podem facilitar o acesso a informações e atividades terapêuticas, especialmente diante de diferenças de fuso horário e barreiras geográficas.
Ainda assim, ferramentas automatizadas não substituem automaticamente o vínculo terapêutico, a escuta qualificada, a avaliação clínica e a adaptação individualizada do tratamento.
O desafio não está apenas em disponibilizar exercícios, mas em compreender as dificuldades que interferem na continuidade e oferecer condições para que o paciente consiga aplicar as estratégias de maneira adequada.
O que essa pesquisa representa para o futuro da TCC-I
O ensaio clínico de Knutzen e colaboradores acrescenta evidências ao campo da Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia em formato digital.
Os resultados mostram que um programa automatizado de nove semanas pode reduzir a gravidade dos sintomas e que maior participação nas atividades esteve associada a melhores resultados.
Ao mesmo tempo, os índices de abandono demonstram que oferecer acesso à tecnologia não garante a continuidade do tratamento.
É necessário compreender quais fatores favorecem o engajamento, como tornar as atividades mais acessíveis e de que maneira o acompanhamento profissional pode contribuir para a participação dos pacientes.
A principal contribuição dessa pesquisa está em mostrar que ferramentas digitais podem ampliar as possibilidades de oferta de intervenções estruturadas para a insônia. Seu potencial, porém, precisa continuar sendo avaliado com rigor científico, atenção à adesão e respeito às necessidades individuais.
A tecnologia pode apoiar o tratamento, organizar atividades e facilitar o acompanhamento. A qualidade do cuidado continua dependendo de evidências científicas, planejamento e compreensão da pessoa atendida.
Acesso gratuito ao artigo científico completo: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13670942/
Por Wenner Daniele · Psicóloga Clínica · CRP 24/01431
Está com dificuldades para dormir?
Se os problemas com o sono estão afetando sua rotina e seu bem-estar, conversar com uma psicóloga pode ajudar você a entender o que está acontecendo e a encontrar formas de lidar com essa dificuldade.
Na WYNEED, oferecemos psicoterapia on-line para brasileiros que vivem no Brasil ou no exterior, com atendimento baseado em evidências científicas.
Cuide da sua saúde mental. Entre em contato para saber mais sobre o atendimento e agendar sua sessão.
Esta notícia tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação individual.
Referências científicas
- Knutzen, S. M., Christensen, D. S., Neumann, H., Damholdt, M. F., Amidi, A., & Zachariae, R. (2026). Smartphone-delivered cognitive behavioral therapy for insomnia: A preliminary randomized controlled trial. Internet Interventions, 46, 101007.
- DOI: https://doi.org/10.1016/j.invent.2026.101007


