Saúde Mental
Por que repetimos comportamentos que sabemos que nos fazem mal?
Por Wenner Daniele · CRP 24/01431
- 01Por que sabemos que algo nos faz mal e, ainda assim, continuamos fazendo?
- 02Resposta rápida
- 03O conflito entre ações orientadas a objetivos e hábitos automáticos
- 04Associações contextuais e automaticidade no comportamento humano
- 05A recompensa imediata e o desconto temporal
- 06E qual é o papel da dopamina?
- 07Regulação emocional e a função do alívio de curto prazo
- 08Nem todo comportamento repetitivo é um hábito
- 09Crenças, pensamentos automáticos e manutenção dos padrões
- 10O impacto do estresse sobre o autocontrole
- 11Como a psicoterapia pode ajudar?
- 12Qual era o estado emocional?
- 13Ferramenta prática: mapeando seus próprios padrões
- 14O que você estava sentindo antes do comportamento?
- 15O que você conseguiu naquele momento?
- 16Como você se sentiu algumas horas mais tarde ou no dia seguinte?
- 17Quando buscar suporte psicológico especializado?
- 18Conclusão
- 19Perguntas frequentes
Por que sabemos que algo nos faz mal e, ainda assim, continuamos fazendo?
Na prática clínica em psicologia e nas discussões acadêmicas no campo das neurociências, uma das perguntas mais frequentes relacionadas ao sofrimento emocional é: “Por que eu continuo fazendo isso com a minha própria vida, se eu sei que me faz mal?”
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Essa pergunta pode aparecer diante de diferentes situações: procrastinar tarefas importantes, permanecer em padrões relacionais desgastantes, comer de forma impulsiva, evitar situações importantes por ansiedade ou recorrer repetidamente a comportamentos que proporcionam alívio imediato, mas trazem consequências negativas posteriormente.
É comum interpretar essa repetição como falta de força de vontade, preguiça ou fraqueza de caráter. A literatura científica em psicologia e neurociência, porém, mostra que a repetição comportamental pode resultar da interação entre aprendizagem, contexto, hábitos, processos de tomada de decisão, emoções e mecanismos de autorregulação.
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Em outras palavras, saber racionalmente que uma consequência será negativa não garante, por si só, que conseguiremos interromper um comportamento.
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Se você deseja compreender melhor os princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental, também pode conhecer nosso conteúdo sobre o que é TCC.
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Este artigo explica por que determinados comportamentos podem se tornar repetitivos, quais fatores contribuem para sua manutenção e como a psicoterapia baseada em evidências pode auxiliar na construção de respostas mais flexíveis.
Resposta rápida
Repetimos comportamentos que sabemos que nos fazem mal porque o comportamento humano não depende apenas daquilo que sabemos racionalmente.
Há situações em que hábitos aprendidos, pistas contextuais, recompensas imediatas, estados emocionais, pensamentos automáticos e processos de tomada de decisão influenciam a escolha de uma resposta.
Com a repetição, determinados comportamentos podem se tornar mais automáticos e fortemente associados a contextos específicos. Isso pode fazer com que a resposta habitual seja iniciada com menor participação da deliberação consciente naquele momento.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode auxiliar nesse processo ao investigar os gatilhos, pensamentos, emoções, consequências e padrões comportamentais envolvidos, ajudando a desenvolver respostas alternativas e mais compatíveis com os objetivos da pessoa.
O conflito entre ações orientadas a objetivos e hábitos automáticos
Para compreender por que podemos repetir uma ação mesmo sabendo que suas consequências não são desejáveis, é importante considerar que diferentes processos podem participar do controle do comportamento.
A literatura descreve uma distinção entre processos orientados a objetivos e processos habituais. Em comportamentos orientados a objetivos, a pessoa considera as consequências esperadas de uma ação para decidir o que fazer. Já os hábitos dependem mais fortemente de associações aprendidas entre determinados contextos e respostas comportamentais.
Esses processos não precisam ser entendidos como dois sistemas completamente separados que simplesmente disputam o controle do cérebro. Na realidade, eles podem interagir e contribuir conjuntamente para o comportamento, dependendo da situação.
Estudos sobre tomada de decisão mostram que processos habituais podem contribuir para a repetição de respostas mesmo quando a pessoa apresenta conhecimento sobre consequências negativas. Em determinadas condições clínicas, uma maior tendência à aprendizagem habitual também foi observada em comportamentos compulsivos. (Voon et al., 2015)
Com a repetição frequente de uma ação em contextos semelhantes, determinados aspectos do comportamento podem tornar-se progressivamente mais automáticos. Isso reduz a necessidade de deliberar conscientemente sobre cada etapa da resposta.
Esse mecanismo é útil em muitas situações cotidianas. Não precisamos pensar conscientemente em todos os detalhes de comportamentos que já aprendemos, como escovar os dentes, dirigir em uma rota conhecida ou realizar tarefas rotineiras.
O problema aparece quando uma resposta automatizada permanece sendo executada mesmo quando deixou de ser adequada aos objetivos atuais da pessoa.
Assim, o conhecimento racional e o comportamento podem entrar em conflito sem que isso signifique falta de inteligência ou caráter.
Associações contextuais e automaticidade no comportamento humano
Os comportamentos repetitivos não acontecem isoladamente. Eles frequentemente estão relacionados a determinados contextos.
Um horário específico, um ambiente, uma pessoa, uma situação social ou mesmo um estado emocional podem funcionar como pistas associadas a determinada resposta.
A pesquisa sobre hábitos mostra que eles podem ser compreendidos como associações entre contexto e comportamento que se desenvolvem por meio da repetição. Quando determinada resposta é repetidamente realizada em um contexto semelhante, a presença daquele contexto pode aumentar a probabilidade de que o comportamento seja iniciado de maneira automática. (Wood & Rünger, 2016; Mazar & Wood, 2018)
Imagine, por exemplo, uma pessoa que costuma utilizar o celular sempre que sente ansiedade durante o trabalho.
Com o tempo, o estado emocional de ansiedade, o ambiente de trabalho e determinados horários podem passar a funcionar como pistas associadas ao comportamento.
Quando a ansiedade aparece novamente, o impulso de pegar o celular pode surgir rapidamente, antes mesmo de uma decisão deliberada sobre o que seria mais útil naquele momento.
Isso ajuda a explicar por que simplesmente dizer “eu preciso parar de fazer isso” nem sempre é suficiente.
A intenção consciente é importante, mas modificar o contexto, reconhecer as pistas e construir respostas alternativas também pode ser necessário.
A recompensa imediata e o desconto temporal
O chamado desconto temporal descreve uma tendência estudada na psicologia e na economia comportamental na qual recompensas ou consequências que estão mais distantes no tempo podem exercer menor influência sobre a decisão imediata do que resultados que acontecem agora.
Isso ajuda a compreender por que uma recompensa pequena e imediata pode, em determinadas situações, competir com um benefício maior que só aparecerá no futuro.
Imagine uma pessoa que deseja dormir melhor, mas permanece utilizando o celular durante a madrugada.
Ela pode saber que dormir mais cedo seria melhor para sua saúde e disposição no dia seguinte. Porém, naquele momento, continuar assistindo a vídeos oferece entretenimento e gratificação imediata.
O benefício de dormir melhor acontecerá horas depois.
A recompensa de continuar assistindo ao conteúdo está disponível agora.
Essa diferença temporal pode contribuir para a dificuldade de escolher uma alternativa que seja mais favorável no longo prazo.
E qual é o papel da dopamina?
Entretanto, é incorreto descrevê-la simplesmente como uma “substância do prazer” responsável por fazer com que todo comportamento prejudicial seja repetido.
A relação entre dopamina, recompensa, aprendizagem e comportamento é mais complexa.
Quando determinado comportamento é associado a resultados relevantes para a pessoa, mecanismos de aprendizagem podem contribuir para fortalecer a probabilidade de respostas semelhantes em situações futuras.
Por isso, ao analisar um comportamento repetitivo, é mais adequado perguntar:
“O que esse comportamento está produzindo imediatamente?”
Pode ser prazer.
Pode ser alívio.
Pode ser distração.
Pode ser redução momentânea da ansiedade.
Pode ser sensação de controle.
Pode ser fuga de uma situação desagradável.
Essa consequência imediata pode ajudar a explicar por que o comportamento continua acontecendo mesmo quando existe um custo posterior.
Regulação emocional e a função do alívio de curto prazo
Uma pessoa pode comer compulsivamente depois de um dia emocionalmente difícil.
Outra pode evitar uma conversa importante porque sente ansiedade.
Alguém pode passar horas nas redes sociais para escapar de sentimentos de solidão.
Outra pessoa pode procrastinar uma tarefa porque antecipar sua realização provoca desconforto.
Em todos esses exemplos, o comportamento pode proporcionar algum tipo de alívio de curto prazo.
O problema é que esse alívio pode ter um custo posterior.
A pessoa pode sentir culpa depois de comer.
Pode continuar com o problema que estava evitando.
Pode perder horas que gostaria de utilizar de outra maneira.
Pode sentir ainda mais ansiedade por ter adiado uma tarefa.
Pode surgir um ciclo:
desconforto → comportamento → alívio imediato → consequência negativa → novo desconforto → repetição
Esse processo pode contribuir para fortalecer a associação entre determinado estado emocional e determinada resposta comportamental.
Por isso, compreender apenas “o que eu faço?” muitas vezes não é suficiente.
Também é necessário investigar:
“O que eu estou tentando sentir, evitar, conseguir ou aliviar quando faço isso?”
Nem todo comportamento repetitivo é um hábito
Hábitos, comportamentos impulsivos, compulsões, procrastinação, esquivas e padrões relacionais repetitivos podem apresentar algumas características semelhantes, mas não são fenômenos equivalentes.
Cada comportamento pode envolver mecanismos psicológicos e clínicos diferentes.
Uma pessoa que procrastina ocasionalmente não necessariamente apresenta um transtorno.
Uma pessoa que repete determinado comportamento compulsivo pode estar lidando com mecanismos diferentes daqueles envolvidos em um hábito cotidiano.
Da mesma forma, comportamentos de evitação relacionados à ansiedade podem exigir uma compreensão diferente daquela utilizada para analisar um hábito contextual.
Por isso, é mais útil investigar a função, o contexto, a frequência, as consequências e o grau de controle percebido do que simplesmente classificar tudo como um “mau hábito”.
Essa diferenciação também é importante para determinar qual tipo de intervenção pode ser mais adequado.
Crenças, pensamentos automáticos e manutenção dos padrões
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, pensamentos automáticos, crenças intermediárias e crenças nucleares podem participar da maneira como uma pessoa interpreta acontecimentos e responde emocionalmente a eles. (Beck, 2020)
Considere alguns pensamentos possíveis:
“Eu não consigo suportar essa pressão.”
“Se eu falhar agora, significa que sou incompetente.”
“Já estraguei tudo mesmo.”
“Não adianta tentar.”
Esses pensamentos podem aumentar emoções desagradáveis e influenciar a escolha de determinadas respostas.
Em algumas situações, a pessoa pode utilizar um comportamento conhecido para reduzir o desconforto naquele momento.
Depois, porém, pode surgir culpa, autocrítica ou frustração.
Isso pode aumentar novamente o sofrimento emocional e contribuir para a repetição do ciclo.
A intervenção psicológica procura justamente compreender essas relações, em vez de simplesmente exigir que a pessoa tenha mais força de vontade.
O impacto do estresse sobre o autocontrole
Em situações de elevada demanda emocional, privação de sono, sobrecarga ou estresse persistente, alguns processos relacionados ao funcionamento executivo podem apresentar pior desempenho.
Isso pode dificultar planejamento, flexibilidade cognitiva, controle da atenção e avaliação cuidadosa das consequências.
Consequentemente, respostas mais familiares, automáticas ou impulsivas podem se tornar mais prováveis em determinadas situações.
Isso ajuda a compreender uma experiência bastante comum:
“Quando estou bem, consigo controlar. Quando estou exausto, volto a fazer tudo de novo.”
Isso não significa que o cérebro simplesmente “desliga” o autocontrole.
Significa que o contexto fisiológico e emocional pode modificar as condições nas quais a pessoa toma decisões e regula seu comportamento.
Por isso, estratégias de mudança comportamental precisam considerar também fatores como sono, estresse, ambiente, rotina e carga emocional.
Como a psicoterapia pode ajudar?
A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece uma estrutura sistemática para compreender a relação entre situações, pensamentos, emoções e comportamentos.
A intervenção não precisa partir de julgamentos morais ou de cobranças relacionadas à força de vontade.
Em vez disso, o processo terapêutico pode investigar:
1. Mapeamento de gatilhos e contextos
Identificar quais situações, horários, ambientes, pessoas ou estados emocionais costumam anteceder o comportamento.
2. Análise funcional
Investigar o que acontece antes e depois do comportamento.
Qual era o estado emocional?
O que a pessoa pensou?
O que fez?
O que conseguiu imediatamente com aquela resposta?
Quais foram as consequências posteriores?
3. Modificação de estímulos
Quando apropriado, modificar aspectos do ambiente que facilitam a repetição automática do comportamento.
Isso pode envolver mudanças na rotina, organização do ambiente ou redução da exposição a determinadas pistas.
4. Reestruturação cognitiva
Identificar pensamentos automáticos, crenças e interpretações que contribuem para a manutenção do padrão e trabalhar formas mais flexíveis de compreendê-los.
5. Desenvolvimento de respostas alternativas
Construir estratégias diferentes para lidar com emoções difíceis, situações de estresse e necessidades que anteriormente eram atendidas pelo comportamento problemático.
6. Treino e repetição
Mudanças comportamentais não acontecem apenas por compreender intelectualmente o problema.
É necessário experimentar novas respostas, observar seus resultados e repetir estratégias alternativas até que elas se tornem mais disponíveis no cotidiano.
A TCC pode, portanto, oferecer estratégias baseadas em evidências para auxiliar na modificação de padrões cognitivos e comportamentais, sempre considerando as características individuais de cada pessoa. (Hofmann et al., 2012; Beck, 2020)
Ferramenta prática: mapeando seus próprios padrões
Sempre que perceber o surgimento do impulso, registre:
1. Contexto e pista ambiental
Onde você estava?
Que horas eram?
O que estava acontecendo?
Havia alguma pessoa, situação ou estímulo específico?
2. Estado emocional
O que você estava sentindo antes do comportamento?
Ansiedade?
Tédio?
Raiva?
Solidão?
Frustração?
Cansaço?
3. Pensamento automático
O que passou pela sua cabeça imediatamente antes da ação?
4. Comportamento
O que você fez concretamente?
5. Consequência imediata
O que você conseguiu naquele momento?
Alívio?
Prazer?
Distração?
Redução da ansiedade?
Sensação de controle?
6. Consequência posterior
O que aconteceu depois?
Como você se sentiu algumas horas mais tarde ou no dia seguinte?
Esse registro não tem a finalidade de produzir autoculpa.
Seu objetivo é aumentar a compreensão sobre o funcionamento do próprio comportamento.
Quando conseguimos observar a sequência com mais clareza, torna-se mais fácil identificar pontos nos quais uma resposta diferente poderia ser introduzida.
Observe o padrão antes de tentar simplesmente eliminá-lo.
Quando buscar suporte psicológico especializado?
Entretanto, pode ser importante buscar avaliação profissional quando:
- o comportamento provoca prejuízos significativos na vida pessoal, profissional, acadêmica ou relacional;
- existe sensação persistente de falta de controle;
- tentativas repetidas de mudança não produzem resultados satisfatórios;
- há sofrimento emocional intenso relacionado ao comportamento;
- existe culpa ou vergonha persistente;
- o comportamento está associado a ansiedade, depressão ou outros sintomas psicológicos relevantes;
- a pessoa percebe que está utilizando determinados comportamentos principalmente para aliviar sofrimento emocional;
- existe comprometimento importante da qualidade de vida.
A avaliação individualizada também é importante porque comportamentos semelhantes podem ter causas e funções diferentes.
Conclusão
Repetir um comportamento que sabemos que nos faz mal não significa necessariamente falta de inteligência, caráter ou força de vontade.
O comportamento humano resulta da interação entre aprendizagem, contexto, hábitos, emoções, pensamentos, consequências e processos de tomada de decisão.
Em algumas situações, respostas que anteriormente produziram recompensa ou alívio podem tornar-se mais prováveis quando determinadas pistas aparecem. Ao mesmo tempo, consequências negativas que acontecerão apenas no futuro podem exercer menor influência sobre a decisão imediata.
Compreender esse processo permite substituir a pergunta “por que eu faço isso comigo?” por perguntas mais úteis:
“O que desencadeia esse comportamento?”
“O que ele produz imediatamente?”
“O que estou tentando evitar ou alcançar?”
“O que acontece depois?”
“Que outra resposta poderia cumprir uma função semelhante de maneira mais saudável?”
Essa mudança de perspectiva não elimina automaticamente um padrão comportamental, mas pode transformar a maneira como a pessoa se relaciona com ele.
Em vez de lutar contra si mesma, ela começa a compreender o funcionamento do próprio comportamento.
E essa compreensão pode ser o primeiro passo para construir respostas mais flexíveis e compatíveis com aquilo que realmente deseja para a própria vida.
A WYNEED pode ajudar
Se você reconhece em sua rotina comportamentos que gostaria de compreender ou modificar, o acompanhamento psicológico pode ajudar a investigar os fatores que estão mantendo esse padrão.
Na WYNEED, oferecemos psicoterapia online para brasileiros que vivem no exterior, com atendimento psicológico estruturado, baseado em conhecimento científico e adaptado às necessidades de cada pessoa.
A psicoterapia pode ser um espaço para compreender padrões repetitivos, trabalhar emoções, desenvolver estratégias de regulação e construir formas mais flexíveis de lidar com situações difíceis.
Você não precisa compreender tudo sozinho para começar a mudar.
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Perguntas frequentes
Por que é tão difícil mudar um hábito indesejado sozinho?
Porque hábitos podem se desenvolver por meio da repetição e de associações entre contextos e comportamentos. Quando determinadas pistas aparecem, elas podem aumentar a probabilidade de uma resposta automática, reduzindo a participação da deliberação consciente naquele momento. (Wood & Rünger, 2016; Mazar & Wood, 2018) Isso não significa que a pessoa seja incapaz de mudar. Significa que a mudança pode exigir mais do que simplesmente decidir “não fazer mais”.
Comportamentos repetitivos indicam falta de caráter ou fraqueza?
Não. A repetição de um comportamento não constitui, por si só, evidência de fraqueza moral. Há diferentes mecanismos psicológicos envolvidos em hábitos, impulsividade, compulsões, evitação e outros padrões comportamentais. Compreender a função do comportamento costuma ser mais útil do que julgá-lo.
A TCC consegue eliminar completamente um hábito indesejado?
Não existe garantia de eliminação completa ou permanente de qualquer comportamento. A TCC pode auxiliar na identificação e modificação de fatores cognitivos, emocionais, contextuais e comportamentais que mantêm determinado padrão. O objetivo terapêutico pode envolver reduzir a frequência do comportamento, aumentar o controle sobre as respostas, desenvolver alternativas mais adaptativas e melhorar a capacidade de lidar com situações que anteriormente desencadeavam o padrão.
Quanto tempo leva para mudar um padrão comportamental?
Não existe um período universal. O tempo depende de diversos fatores, incluindo a frequência do comportamento, há quanto tempo ele existe, a força das associações contextuais, as condições emocionais da pessoa, o ambiente e a consistência na prática de novas estratégias. Mudança comportamental é um processo, e não um prazo fixo.
Cada leitura é um convite ao cuidado com a própria mente — o primeiro passo pode ser conversar.
Leia também:
- American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.; DSM-5). American Psychiatric Publishing.
- Wood, W., & Rünger, D. (2016). Psychology of habit. Annual Review of Psychology, 67, 289–314.
- Voon, V., Derbyshire, K., Rück, C., Irvine, M. A., Worbe, Y., Enander, J., Schreiber, L. R. N., Gillan, C., Fineberg, N. A., Sahakian, B. J., Robbins, T. W., Harrison, N. A., Wood, J., Daw, N. D., Dayan, P., Grant, J. E., & Bullmore, E. T. (2015). Disorders of compulsivity: A common bias towards learning habits. Molecular Psychiatry, 20(3), 345–352.
- Mazar, A., & Wood, W. (2018). Defining habit in psychology. In B. Verplanken (Ed.), The Psychology of Habit: Theory, Mechanisms, Change, and Contexts (pp. 13–29). Springer.
- Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J. J., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2012). The efficacy of cognitive behavioral therapy: A review of meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36, 427–440.
- Gillan, C. M., Apergis-Schoute, A. M., Morein-Zamir, S., Urcelay, G. P., Sule, A., Fineberg, N. A., Sahakian, B. J., & Robbins, T. W. (2016). Effects of dopamine D2/3 receptor blockade on the balance between goal-directed and habitual control in humans. Translational Psychiatry, 6, e743.
