Saúde Mental
Além das Baleias e dos Tribunais: O Que "Uma Advogada Extraordinária" Nos Ensina Sobre o Peso de Ser Diferente

"Para os nazistas, as pessoas que não eram dignas de viver eram aquelas com deficiência física, doenças terminais ou doenças mentais, incluindo pessoas autistas. Há apenas 80 anos, eu teria sido considerada indigna de viver." (Woo Young-woo, no marcante terceiro episódio da série)
Lá em 2023, quando sentei no sofá para assistir aos primeiros episódios de Uma Advogada Extraordinária na Netflix, confesso que fui movida pela pura curiosidade que todo k-drama de sucesso desperta. Como psicóloga, meu olhar clínico sempre fica em alerta com produções que tentam retratar mentes neurodivergentes. Muitas vezes, a ficção erra feio, transformando o autismo em uma lista fria de sintomas ou em uma caricatura boba.
No entanto, logo na cena em que a protagonista se apresenta dizendo seu nome, que pode ser lido de frente para trás ou de trás para frente, igual a palavras como radar ou rotativo, percebi que estava diante de algo completamente diferente. A história da jovem brilhante, com um QI de 164 e apaixonada por baleias, que se torna a primeira advogada autista da Coreia do Sul, quebrou todas as minhas expectativas.
Se você ainda não deu uma chance para essa produção, ou se já assistiu e quer entender o que acontece na mente de Woo Young-woo sob a ótica da Psicologia e das Neurociências, seja muito bem-vindo. Vamos analisar juntos por que essa jornada nos toca de forma tão humana e real.
- 01.1. A Construção de Woo Young-woo: Entre o Clichê e a Humanidade
- 02.2. O Autismo Diante do DSM-5: O Que a Série Mostra de Verdade?
- 03.3. A Armadilha do Gênio: Precisamos Ser Extraordinários para Ser Respeitados?
- 04.4. Perguntas Frequentes Sobre o Dorama e o Autismo (FAQ)
- 05.5. Conclusão: O Direito de Ser Estranho em um Mundo Quadrado
1. A Construção de Woo Young-woo: Entre o Clichê e a Humanidade
Muitas histórias sobre autismo na televisão tendem a focar quase sempre em meninos e em personagens frios, focados apenas em matemática ou computação. A advogada Woo quebra esse clichê logo de início por ser uma mulher e por trabalhar nas ciências humanas, desfazendo a ideia de que mentes no Espectro Autista não possuem sensibilidade ou interesse pelo comportamento das pessoas.
A série é construída no formato de um drama jurídico leve e divertido. Cada episódio traz um caso criminal ou cível diferente que Young-woo precisa investigar e solucionar. Essa estrutura deixa o dorama dinâmico, pois vemos a mente dela funcionando como um quebra-cabeça em tempo real.
Mas o grande trunfo da produção não são os mistérios jurídicos. É a forma como o ambiente reage a ela. O dorama não se divide entre vilões terríveis e mocinhos perfeitos. Ele mostra pessoas reais, colegas de trabalho e clientes que, muitas vezes, sentem dúvida, frustração ou preconceito por não saberem como lidar com o jeito diferente de Young-woo se comportar.
2. O Autismo Diante do DSM-5: O Que a Série Mostra de Verdade?
Como psicóloga especialista em TCC, achei fascinante ver como os roteiristas conseguiram traduzir critérios do DSM-5 (o manual de diagnósticos da Psiquiatria) em comportamentos cheios de carisma. Woo Young-woo apresenta o que a ciência chama de Transtorno do Espectro Autista (TEA) Nível 1 de Suporte, antigamente conhecido como Síndrome de Asperger ou autismo de alto funcionamento.
Podemos observar na tela quatro sinais muito característicos e reais do espectro:
Hiperfoco: o interesse obsessivo e profundo por assuntos específicos, que no caso dela são as baleias e os cetáceos. Ela se torna uma enciclopédia viva sobre o tema, misturando esse amor com as soluções das suas teses jurídicas.
Hipersensibilidade Sensorial: o cérebro autista processa estímulos ambientais de forma muito intensa. Young-woo usa fones de ouvido com cancelamento de ruído quase o tempo todo em locais públicos para proteger sua mente do barulho ensurdecedor do trânsito e do metrô.
Ecolalia: a repetição automática de palavras ou frases ditas por outras pessoas, ou a necessidade de repetir o próprio nome e conceitos antes de entrar em uma sala.
Dificuldade na Comunicação Social: a barreira para manter contato visual direto, a rigidez com rotinas alimentares (comendo o mesmo kimbap todo dia por segurança de textura) e a dificuldade para interpretar ironias, metáforas ou segundas intenções.
Se você também sente que o excesso de barulho, o trânsito da cidade e os estímulos do dia a dia estão deixando o seu corpo em alerta, veja o nosso guia de como controlar a ansiedade sem remédios através de passos práticos da TCC.
3. A Armadilha do Gênio: Precisamos Ser Extraordinários para Ser Respeitados?
Como profissional de saúde mental, preciso fazer uma crítica importante que a série levanta de forma muito corajosa. No terceiro episódio, a advogada Woo precisa defender um cliente que também é autista, mas que possui um nível de suporte muito maior, fala muito pouco e não se encaixa no padrão de "gênio". É nesse momento que o dorama toca na ferida do preconceito.
Muitas vezes, a sociedade só aceita a neurodivergência se a pessoa for útil, produtiva ou extraordinária em alguma coisa. Há uma tendência corporativa de valorizar o autista apenas se ele for uma máquina de trabalhar ou um gênio dos computadores, quase como se o respeito à dignidade humana estivesse à venda por quilos de produtividade.
Esse esforço contínuo para provar que somos eficientes cobra um preço muito alto da nossa saúde física. Para entender se a sua mente já está pedindo socorro, leia o nosso artigo sobre os 10 sinais silenciosos de ansiedade no corpo.
Uma Advogada Extraordinária mostra que mesmo sendo genial, o talento de Young-woo sozinho não a protege das barreiras do preconceito. Ela ainda sofre exclusão e desconfiança. A série nos convida a entender que as pessoas no espectro, possuindo habilidades geniais ou enfrentando grandes limitações diárias, merecem empatia, adaptação e dignidade pelo simples fato de serem humanas.
Se a pressão por ser sempre produtivo está pesando, conheça também nosso conteúdo sobre esgotamento funcional e exaustão emocional, e visite o hub Brasileiros no Exterior se essa cobrança aparece ainda mais forte na vida fora do país.
4. Perguntas Frequentes Sobre o Dorama e o Autismo (FAQ)
O autismo é uma condição totalmente genética? A ciência mostra que o TEA é causado por uma combinação complexa de fatores genéticos e ambientais. Estudos com irmãos e exames de DNA revelam que existem mais de 100 genes associados ao transtorno, mas o diagnóstico ainda é feito com base na análise clínica dos comportamentos do paciente, e não por um exame de sangue isolado.
Vai ter segunda temporada de Uma Advogada Extraordinária? Sim, a segunda temporada foi confirmada pela produtora e pela Netflix. O retorno da série foi planejado para dar continuidade ao desenvolvimento dos personagens e mostrar novos desafios da carreira jurídica de Young-woo.
O que é o "mascaramento" que algumas pessoas autistas sofrem? O mascaramento é o esforço mental exaustivo que muitas pessoas neurodivergentes fazem para esconder seus traços, imitando comportamentos típicos para tentar se encaixar, fazer amigos ou parecer profissionais. Esse esforço diário para parecer perfeito e camuflar dificuldades consome uma energia mental gigantesca, sendo uma das principais causas de depressão, insônia e esgotamento profissional (burnout) em adultos.
A série representa todos os autistas? Não. Como o próprio nome diz, trata-se de um espectro. Isso significa que o autismo se manifesta de formas completamente diferentes em cada indivíduo. A série representa muito bem a vivência do Nível 1 de suporte, mas existem pessoas que precisam de muito mais ajuda para a comunicação e tarefas básicas do dia a dia.
5. Conclusão: O Direito de Ser Estranho em um Mundo Quadrado
Uma Advogada Extraordinária ganhou o mundo porque, por trás dos tribunais e das baleias flutuantes, ela fala sobre o desejo universal de todo ser humano: o direito de ser aceito, de encontrar a felicidade, de ter um trabalho digno e de viver um amor verdadeiro sem precisar abrir mão de quem somos.
O título original da série em coreano usa uma palavra que se aproxima mais de estranha do que de extraordinária. E talvez essa seja a maior beleza da história. Ela nos ensina que ser diferente, ter manias ou enxergar o mundo por outro ângulo não faz de ninguém alguém menos digno de respeito.
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Leia também:
- Doki, S., Sasahara, S., & Matsuzaki, I. (2018). Stress of working abroad: a systematic review. PMC6132646.
- Silbiger, A., Berger, R., Barnes, B. R., & Renwick, D. W. S. (2016). Improving Expatriation Success: The Roles of Regulatory Focus and Burnout. British Journal of Management.
- Berry, J. W. (1997). Immigration, acculturation, and adaptation. Applied Psychology: An International Review.
- Salkovskis, P. M. (1985). Obsessional-compulsive problems: A cognitive-behavioural analysis. Behaviour Research and Therapy.
- Pines, A. M. (2005). The Burnout Measure Short.
